sábado, 20 de novembro de 2010

O despertar da Multidão

A Multidão, segundo a visão de Michael Hardt e Antonio Negri, se apresenta como uma alternativa ao imenso poderio do Império. Ela reúne em si toda a diversidade humana, sem precisar homogeneizá-la. Tem o poder da resistência, e a chave para a sociedade global alcançar uma democracia “verdadeira”. Contudo, mesmo tendo tantos atributos, é preciso mais elementos para que a multidão se torne um sujeito político capaz de fazer frente ao Império. Um desses elementos, talvez o mais básico de todos, seja uma consciência de si. O grande entrave da multidão atualmente é o fato da mesma não ter ideia do seu poder, por vezes de sua existência. A responsabilidade por tal quadro se deve aos métodos de controle do Império, que, ao contrário de outros tempos, alcança níveis profundos, como no caso da subjetividade. A única maneira de despertar a multidão “adormecida” é combatendo esses métodos de controle imperiais, bloqueando as vias pelas quais os mesmos operam.
O controle da subjetividade atualmente é exercido desde cedo, logo nos primeiros anos de vida das crianças. Essas crianças já nascem inseridas em uma cultura alienante, voltada para o consumo. Basta ver, por exemplo, as marcas de fraldas, ou de roupas, estampadas com personagens de desenhos animados, sendo que os preços das mesmas é maior, bem como seu consumo. Além da cultura, às crianças é imposta uma educação que visa justamente reafirmar o consumismo, o conformismo e a desunião, através de atitudes que incentivem o individualismo e a competição. Em outras palavras: para que a multidão se converta em sujeito político é preciso combater as atuais cultura e educação oferecidas pelo Império.
E o que por no lugar? No que toca a cultura é complicado levantar hipóteses sobre o que seria um bom substitutivo, haja tido a enorme variedade de culturas que permeia a multidão. Um ponto é básico: eliminar os traços da sociedade de consumo, fazer com que as pessoas percebam que comprar não é tudo, que essa prática não torna ninguém melhor, pior, ou que o consumismo esteja relacionado à união social (algo falso, criado pelas grandes corporações para venderem mais). É claro que, nesse combate ao consumismo, devem ser respeitadas as particularidades de cada grupo social, e se tomar cuidado com tendências “massificadoras”.
Por outro lado, a educação deve deixar de lado correntes ideológicas, parar de querer ditar o “certo” e o “errado”, principalmente no campo político-social. A formação acadêmica não deve estar inclinada para a “direita” (como se encontra os ensinos fundamental e médio) ou a para a “esquerda” (como se percebe em muitas instituições de ensino superior). Ela deve priorizar a individualidade, no sentido de uma independência de ideias (não individualismo burguês, em que o que vale é o bem estar individual, mesmo que às custas do sofrimento alheio). Deve cultivar a ideia de que todo indivíduo está inserido em um ou mais grupos sociais, os quais dependem dele, e dos quais eles, de certa forma, são dependentes (diferente do sentimento de “pertencer à uma classe” freqüentemente adotado pela esquerda, em que se busca criar uma grande “classe operária” para lutar contra uma “grande classe burguesa”, e onde só importam os interesses do conjunto). O respeito às diferenças entre os grupos sociais e étnicos, e que essas diferenças não tornam um grupo mais importante do que outro dentro da multidão, devem estar entre suas pautas de discussão. E, principalmente, a educação que pretende combater a dominação do Império deve estar aberta às escolhas de indivíduos e grupos, mesmo que estes decidam se aliar ao Império e ao seu esquema de desigualdades, lembrando que a verdade absoluta não está nas mãos de nenhum ser humano.
Concluindo, um elemento que não pode faltar à Multidão é a consciência de que a mesma tem em suas mãos o poder para enfrentar o Império. Essa consciência não será, jamais, construída de uma hora pra outra. O processo é lento, e envolve profundas transformações nos campos culturais e educacionais. Só o tempo dirá se a Multidão está preparada para assumir seu papel político no cenário internacional.

5 comentários:

  1. Gostei bastante do texto, está muito bem escrito!
    Concordo que a "multidão" está impregnada com um pensamento alienado, mas não sei se eliminar os principais traços da sociedade de consumo é possível nessa altura do campeonato.
    Talvez a Massa (que teria, sim, poder para derrubar a soberania do Império) esteja acomodada demais com sua situação - portanto, o individualismo se apaga e cede lugar ao conformismo: e é aí que a força imperial se solidifica ainda mais.

    Alana

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  2. O texto está bem fundamentado. Concordo com a ideia de que a nossa subjetividade é controlada desde cedo. Realmente, quando paramos para analisar a infância, podemos perceber claramente o quanto somos influenciados a sermos extremamente consumistas.Sobre esse assunto, um documentário que realmente recomendo é "Criança: a alma do negócio". No vídeo diversos especialistas analisam a forma como a propaganda age no subconsciente infantil. Vale a pena assisti-lo para quem quiser se aprofundar no assunto.
    No entanto, discordo da alegação de que a educação deve "deixar de lado as correntes ideológicas". Acredito que toda aula é ideológica e que isso é benéfico para a sociedade. Não penso que seja necessário que os professores deixem de expor suas posições durante as aulas, mas sim que os estudantes tenham uma formação crítica que permita com que eles possam formar suas próprias opiniões.

    Mariana Tessitore

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  3. Guilherme Nagamine Gomes30 de novembro de 2010 às 02:24

    Temos uma visão interessante no texto quando dito que a multidão não tem consciência (ainda) do que pode fazer frente ao Império.
    Discordo dessa ideia. É possível ver grupos de trabalhadores ou outros realizando atos e conseguindo negociações. Pode ser uma ação em escala local apenas, mas mostra que existe uma consciência de poder.
    Por outro lado, vejo que falta consciência em outro ponto: na política. São poucos os que tem e muitos os leigos no assunto. Daí, a necessidade da formação acadêmica dar ênfase neste ponto, para que cada indíviduo desenvolva ideias próprias e não fique preso a ideologias aprsentadas como mais "fortes" e que representem um amplo modelo.

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  4. É difícil retirar os fatores de alienação da multidão pelo simples motivo de que ela talvez não queria viver sem eles. Imaginem uma pessoa que passou o dia todo trabalhando, utilizando-se de um transporte público precário, para enfim voltar a sua casa à noite e fazer um esforço para colocar comida na mesa para seus filhos...essa pessoa dificilmente terá ânimo para assistir a um programa televisivo que a conscientize socio-politicamente. Essa pessoa quer ver uma novela, ou um jornal simples, superficial e facilmente digerível, como o Jornal Nacional. Se ela não encontrar um programa desses, ela vai mudar de canal até encontrar algum que apresente aquilo que ela quer ver (ou seja, que cumpra a regra número 1 da televisão: mostrar às pessoas o que ela querem). Se não encontrar, ela vai desligar o aparelho para procurar outra atividade "alienante", para descançar o cérebro, dormir e ficar pronta para mais um dia de trabalho.

    Por Victor de Andrade Lopes

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  5. Primeiramente,quero dizer que achei genial a ideia proposta de que o consumismo coloca todos os indivíduos num mesmo patamar. Na lógica capitalista, antes de qualquer coisa, somos todos consumidores. Isso nada mais é que uma forma de manter todo mundo comportado, enquanto a população tiver comida na mesa e uma TV na sala, ninguém pensará em colocar tudo a perder com uma revolução, mesmo que esta gere um benefício em longo prazo. O sistema educacional vigente nas escolas ajuda a perpetuar esse ciclo de consumismo. Acho improvável que se mude o que, teoricamente, está dando certo. Em minha opinião, a formação educacional é contraditória, pois durante todo o período escolar, somos doutrinados a aceitar passivamente o sistema; quando entramos na universidade, aprendemos a criticar tudo o que nos foi passado (claro que isso só vale para quem vivenciou toda a formação educacional: fundamental, média e superior).
    Em síntese, gostei muito do texto, achei o argumento bem explorado e muito bem explicado.
    Victor Costa


    PS: esse comentário serve para repor o outro que já fiz.

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