domingo, 5 de dezembro de 2010

A relação entre mídia e opinião pública na atualidade

A opinião pública deveria ser encarada como um produto coletivo. Como tal, não constitui uma opinião unânime com a qual cada membro do público está de acordo, não sendo também forçadamente a opinião da maioria”.

Herbert Blumer


As últimas décadas têm sido de expansão para a área da comunicação. Os avanços tecnológicos têm permitido o acesso de um número cada vez maior de pessoas aos chamados meios de comunicação em massa (televisão, rádio, jornais, revistas etc.), tanto nos países ditos desenvolvidos, quanto nos em desenvolvimento. O Brasil, por exemplo, já passou por uma “Era do rádio” e agora vive uma “Era da televisão”, onde a maioria da população, ou tem, ou pelo menos assiste a programas televisivos.

Essa expansão não se refere apenas ao aumento de consumidores, mas também a de sua influência. Em um mundo em vias de globalização, cada vez mais veloz, onde a população dispõe de um tempo cada vez menor para vivenciar novas experiências, o “estar informado” torna-se quase um imperativo para o convívio social. Assim, criou-se um verdadeiro grupo de “fiéis” dos meios de comunicação, dependentes das informações “importantes” que estes têm a oferecer.

Tendo em vista tal cenário, é possível compreender o peso que a mídia possui nas discussões, bem como na formação da opinião pública. Esta, por sua vez, converteu-se em um instrumento “manipulável”, trabalhando no sentido de conquistar (ou manter) o maior número possível de consumidores “fiéis”. É importante ressaltar que o termo “manipulável” não se refere, aqui, a algo imposto e seguido cegamente. Na realidade, a mídia não impõe nada, somente sugere de uma tal maneira escancarada que chega quase a ser uma imposição. Ela age como se fosse a voz de uma “Consciência” da sociedade, que deve guiá-la sempre pelo caminho “reto”.

Algumas vezes a mídia manipula a opinião pública sem ter total consciência do que está fazendo, e acaba chegando a resultados que não planejou. Um bom exemplo é o caso Nardoni. Antes da condenação pelo júri popular, Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá foram julgados e condenados pela imprensa. Esse julgamento não foi algo planejado. Ocorreu que , conforme o caso se desenrolou e foram surgindo novas pistas e indícios, a mídia foi selecionando aquilo que, para ela, traria maiores índices de audiência, e, mesmo sem querer, acabou imputando a imagem de assassinos ao casal. Foi pensando nos índices de audiência que a revista Veja estampou em sua capa a machete: Para a polícia não há dúvidas, eles são culpados (destacando as últimas palavras). O resultado é conhecido: entre a população a ideia da culpa do casal era praticamente uma unanimidade, chegando ao extremo de se repudiar qualquer um que ousasse dizer o contrário (mesmo sendo o advogado de defesa e membros das famílias dos réus).

Obviamente existem momentos em que a manipulação da opinião pública é algo consciente, com uma finalidade específica. Também existem momentos em que a mídia perde o controle sobre seu público fiel. Foi o caso das últimas eleições. Grande parte da mídia pretendia eleger José Serra. Entretanto, quem se elegeu foi Dilma Rousseff, sua principal concorrente.

Que a mídia possui uma forte influência sobre a opinião pública não há dúvidas. Só que, ao contrário do que se pensa, essa influência não é total, nem tão pouco faz parte de uma “conspiração”. Mesmo que, por vezes, os meios de comunicação manobrem a sociedade como se esta fosse apenas uma massa, é importante perceber o fato da mesma ser formada por indivíduos com vontades e pensamentos diversos, tornando as relações entre mídia e opinião pública uma verdadeira caixinha de surpresas.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Direito de ficar em silêncio

Devastado por secas e cheias, e, sobretudo por guerras civis (entre 30 e 40 conflitos no final do século XX), o continente africano parece ter mergulhado em um abismo. Terminados os conflitos, o terror não se encerra nas zonas rurais, onde a presença de minas e de munições não explodidas constitui uma ameaça permanente à reconstrução das comunidades ali presentes. Na Etiópia, Eritreia, Somália e Djibuti, países da região conhecida como Chifre Africano, a fome, responsável por boa parte dos óbitos naquela região, já deixou de ser notícia na imprensa internacional há muito tempo. Sem contar outros graves problemas, como a seca, as guerras, as doenças sexualmente transmissíveis e a permanente instabilidade política e religiosa na região, fomentada por décadas de exploração estrangeira.
As profundas desigualdades na distribuição de renda no mundo atingiram atualmente proporções verdadeiramente chocantes. O número de pobres não pára de crescer e já soma 307 milhões de pessoas no mundo. Relatório da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) ,recentemente publicado, mostra que nos últimos 30 anos o número de pessoas que vivem com menos de US$ 1,00 duplicou nos países menos desenvolvidos. Para a agência da Organização das Nações Unidas (ONU), o dado mais preocupante é a tendência de que esse número aumente até 2015, quando os países menos desenvolvidos poderão passar a ter 420 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Em algumas regiões, principalmente na África, parte da população já tem um consumo diário de apenas 57 centavos de dólares, enquanto um cidadão suíço gasta por dia US$ 61,9. Nos anos 70, cerca de 56% da população africana vivia com menos de US$ 1,00, atualmente este valor é de 65%.A pobreza aumenta, em vez de diminuir. Não restam dúvidas que mesmo em um quadro de miséria como este, sempre há alguém que lucra com a desgraça alheia.
Ser pobre num país do Chifre Africano é muito mais do que ter dificuldades para comprar uma roupa ou um sapato. Significa não ter direito de ser considerado ser humano. Apesar de não existir nenhum tipo de decreto que cerceie legalmente os direitos de qualquer cidadão daquela região, o estado de exceção tornou-se permanente, e grande parte das mazelas africanas se deve às adversidades, derivadas de décadas de guerras e cobiças dos povos estrangeiros, que sempre buscaram extrair até o último grão das riquezas e da dignidade dos africanos. O corno africano, como também é conhecida a região, é um lugar onde o artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos tomou uma rota alternativa e passou longe: “ Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.” O único direito que um cidadão dessa região possui é o de permanecer em silêncio diante das absurdas situações de humilhação que lhes são impostas diariamente. A dignidade que lhes concedem são as esmolas gentilmente cedidas por grupos assistencialistas, como as Nações Unidas, que, ao que parece, em nenhum momento buscam minar as causas de tamanha ignomínia, mas sim, aliviar o peso de sua consciência com irrisórias contribuições que em nada modificam a estrutura de vida desse povo. Estes, por sua vez, devem sentir-se agradecidos por ver que os mesmos que usurpam seus recursos, fomentando todo o tipo de desgraça para o povo africano, ao menos se preocupam em devolver as migalhas que caem de suas mesas.
No chifre africano as pessoas passaram a ser vistas como não-pessoas. Qualquer um pode matar ou morrer sem que ninguém seja considerado culpado por isso. Os estrangeiros invadem, exploram, saqueiam, matam e isso é visto como algo comum. Como abutres famintos, esperam apenas que os povos se matem entre si para levar-lhes até as vísceras para usada como capital mundo a fora. Mas que o mundo não se preocupe, pois mesmo em meio aos gritos de dor e de fome um direito lhes permanece intacto: o de permanecer em silêncio.