A Multidão, segundo a visão de Michael Hardt e Antonio Negri, se apresenta como uma alternativa ao imenso poderio do Império. Ela reúne em si toda a diversidade humana, sem precisar homogeneizá-la. Tem o poder da resistência, e a chave para a sociedade global alcançar uma democracia “verdadeira”. Contudo, mesmo tendo tantos atributos, é preciso mais elementos para que a multidão se torne um sujeito político capaz de fazer frente ao Império. Um desses elementos, talvez o mais básico de todos, seja uma consciência de si. O grande entrave da multidão atualmente é o fato da mesma não ter ideia do seu poder, por vezes de sua existência. A responsabilidade por tal quadro se deve aos métodos de controle do Império, que, ao contrário de outros tempos, alcança níveis profundos, como no caso da subjetividade. A única maneira de despertar a multidão “adormecida” é combatendo esses métodos de controle imperiais, bloqueando as vias pelas quais os mesmos operam.
O controle da subjetividade atualmente é exercido desde cedo, logo nos primeiros anos de vida das crianças. Essas crianças já nascem inseridas em uma cultura alienante, voltada para o consumo. Basta ver, por exemplo, as marcas de fraldas, ou de roupas, estampadas com personagens de desenhos animados, sendo que os preços das mesmas é maior, bem como seu consumo. Além da cultura, às crianças é imposta uma educação que visa justamente reafirmar o consumismo, o conformismo e a desunião, através de atitudes que incentivem o individualismo e a competição. Em outras palavras: para que a multidão se converta em sujeito político é preciso combater as atuais cultura e educação oferecidas pelo Império.
E o que por no lugar? No que toca a cultura é complicado levantar hipóteses sobre o que seria um bom substitutivo, haja tido a enorme variedade de culturas que permeia a multidão. Um ponto é básico: eliminar os traços da sociedade de consumo, fazer com que as pessoas percebam que comprar não é tudo, que essa prática não torna ninguém melhor, pior, ou que o consumismo esteja relacionado à união social (algo falso, criado pelas grandes corporações para venderem mais). É claro que, nesse combate ao consumismo, devem ser respeitadas as particularidades de cada grupo social, e se tomar cuidado com tendências “massificadoras”.
Por outro lado, a educação deve deixar de lado correntes ideológicas, parar de querer ditar o “certo” e o “errado”, principalmente no campo político-social. A formação acadêmica não deve estar inclinada para a “direita” (como se encontra os ensinos fundamental e médio) ou a para a “esquerda” (como se percebe em muitas instituições de ensino superior). Ela deve priorizar a individualidade, no sentido de uma independência de ideias (não individualismo burguês, em que o que vale é o bem estar individual, mesmo que às custas do sofrimento alheio). Deve cultivar a ideia de que todo indivíduo está inserido em um ou mais grupos sociais, os quais dependem dele, e dos quais eles, de certa forma, são dependentes (diferente do sentimento de “pertencer à uma classe” freqüentemente adotado pela esquerda, em que se busca criar uma grande “classe operária” para lutar contra uma “grande classe burguesa”, e onde só importam os interesses do conjunto). O respeito às diferenças entre os grupos sociais e étnicos, e que essas diferenças não tornam um grupo mais importante do que outro dentro da multidão, devem estar entre suas pautas de discussão. E, principalmente, a educação que pretende combater a dominação do Império deve estar aberta às escolhas de indivíduos e grupos, mesmo que estes decidam se aliar ao Império e ao seu esquema de desigualdades, lembrando que a verdade absoluta não está nas mãos de nenhum ser humano.
Concluindo, um elemento que não pode faltar à Multidão é a consciência de que a mesma tem em suas mãos o poder para enfrentar o Império. Essa consciência não será, jamais, construída de uma hora pra outra. O processo é lento, e envolve profundas transformações nos campos culturais e educacionais. Só o tempo dirá se a Multidão está preparada para assumir seu papel político no cenário internacional.